No quarto dele a única luz vinha da tela do computador, e poucos reflexos dos carros e postes do lado de fora do prédio. Eram 3 da manhã. Eles estavam jogados no colchão, sem roupas, ofegantes. Já era a terceira vez que tinham transado aquela noite, mas alguma coisa foi diferente dessa vez. O sentimento passou do abstrato para o físico, e quando ela respirava sentia seu peito quente. Ela sentia tanto tesão por ele que, às vezes, no meio do sexo, tinha vontade de chorar. Já ele, ria. E ela amava vê-lo sorrir.
Ele olhava nos olhos dela, quando ela estava por cima, com uma expressão atônita. Pasmo ou admirado, ela nunca sabia. Quando ela olhava de volta em seus olhos, tudo que ela queria era conseguir ler seus pensamentos para entender o por quê do riso dele segundos antes de gozar. No fundo ela sabia que era felicidade, porque era o que ela também sentia. Uma música diferente toca ao fundo, alternativa e internacional. Lá fora chove, mas o calor não passa. Um caminhão de bombeiros passa na avenida, apressado e aos berros.
Com o barulho ela abriu os olhos, como se o som da sirene fosse um cabo elástico que a puxou de volta para a realidade. Sua alma voltou para o corpo lentamente, ainda inebriada e entorpecida. Quando abriu os olhos encarou o homem deitado nu ao seu lado, de barriga para baixo e olhos fechados, prazerosamente descansando. Ela sorriu satisfeita, se aproximou devagar e, enquanto tocava suas costas com a ponta dos dedos delicadamente, colocou sua coxa em cima dele. Ele suspirou.
Ela gostava da textura da pele dele. Especialmente depois de transar. De olhos bem abertos, ela observava enquanto ele repousava em silêncio, aproveitando suas carícias. Nessa hora, ela ficou ansiosa. Borboletas subiram pelo estômago, rodaram várias vezes ao redor de seu coração e explodiram para fora de seu peito, voando para fora de sua boca como palavras velozes e trêmulas.
- Eu amo você. - Silêncio - E você não precisa me dizer nada em retorno, eu só precisava falar o que eu sinto. Eu sinto um carinho profundo por você, e também uma paixão muito louca e tesão... eu amo como a sua pele responde ao meu toque e como a gente se beija, primeiro devagar e depois com força. Eu amo a forma como você me trata, o que meu corpo sente com você... cara! Eu tô completamente apaixonada por você. De verdade. Meu coração bate forte quando eu te vejo chegar e acelera quando você me abraça e me beija. É uma sensação física, é como se eu te amasse com o meu corpo. Eu não sei bem como lidar com isso ainda, mas precisava dizer por que já estava segurando isso a muito tempo. Desculpe se isso foi muito profundo ou súbito ou errado ou doido. Não quero te deixar desconfortável de forma alguma e... - ela parou de fazer o carinho nas costas dele e começou a levantar sua perna para sair da cama. Ele percebeu o movimento e rapidamente a segurou naquela posição.
- ... e o quê? Continua, estou te ouvindo. - Disse ele, de olhos fechados.
A música terminou e alguns raros segundos de silêncio pairaram pelo ar daquele quarto. Segundos que pareceram minutos dentro da cabeça ansiosa dele, esperando ela falar, e dela, organizando suas ideias para tentar se explicar. Ela, de repente, se deu conta do que acabara de fazer, como se novamente sua alma fosse sugada para dentro do corpo e a realidade batera a sua porta, ferozmente. A coragem que a fez subitamente se declarar se esvaiu de seu ser, e sua respiração começou a ficar inconstante. Ela disse, transparecendo uma calma que não existia:
- E que as coisas mudem entre nós, ou que você se sinta pressionado a sentir o mesmo. Eu sei que somos pessoas diferentes e - ele a interrompeu e só abriu os olhos para dizer:
- Eu amo você também. Nada vai mudar. Vem me abraçar.
A próxima música começou, e aquela ambos conheciam bem. Aconchegaram-se no abraço um do outro e dormiram felizes. Afinal de contas, aquele ainda não era o último dia, e quando este viesse, seguiriam em paz.