sábado, 13 de janeiro de 2024

Programas rodando em segundo plano

Com o passar do tempo fazendo terapia na linha da psicanálise, fui identificando alguns padrões neurais que adquiri. Pensar neles sempre me deixa cansada, pois geralmente estão associados a traumas emocionais, por isso procuro me manter ocupada pensando em outras coisas.

Mesmo assim, meu subconsciente continua trabalhando enquanto o tempo passa, seja dormindo ou acordada, a análise de mim mesma continua acontecendo. De vez em quando essa análise emerge à superfície, fornecendo novas informações que elevam o padrão e complexidade da análise do meu "eu" interior: aquele que racionaliza e que sente, não necessariamente nesta ordem. Gosto de pensar que essa voz interna, que me dita as palavras que escrevo agora, é este "eu". Este "eu" que existe, pensa e sente.

Este eu trabalha continuamente. E foi assim desde que surgiu a minha espécie de seres vivos neste planeta. Todos temos essa energia cerebral que nos guia. Essa energia pode ser comparada a programas rodando em segundo plano, como nos computadores. Esses programas foram definidos pelo ChatGPT como:

"Programas em segundo plano são aplicativos ou processos que operam sem a interação direta do usuário, executando tarefas específicas enquanto outras atividades estão em andamento. Essa prática otimiza a eficiência do sistema operacional, permitindo a execução simultânea de múltiplas tarefas. Autores como Tanenbaum e Silberschatz, em seus livros sobre sistemas operacionais, discutem a importância e o funcionamento desses programas em segundo plano."

Achei uma definição satisfatória e encontrei um livro do Tanenbaum, disponível aqui.

De qualquer forma, essa comparação é apenas para exemplificar o entendi até agora sobre como se comporta minha mente.

E não só a minha, todos nós, seres humanos, somos assim.

A diferença é que alguns de nós não se importa muito com questões da mente, um exemplo disso é a torta de climão que vários lugares serve ao abordar doenças mentais. O fato é que ninguém quer passar muito tempo pensando sobre a mente ou sobre emoções. Nossos instintos mais profundos são deixar essas questões rodando apenas como programas de segundo plano. A vontade que dá é só ignorar que as complexidades pessoais existem, buscando produtividade diária, sucesso pessoal (em todas as suas esferas) e reproduzindo o estilo de vida dominante neste planeta. 

Esta, pelo menos, é a vontade ensinada. Ela apresenta várias opções para substituir diversos pensamentos perigosos para as sociedades, incutindo nas pessoas ideias comuns para explicar fenômenos mentais e até mesmo a existência da mente, visto que os seres humanos apresentam um grau de racionalização e cooperação diferenciada dos animais da Terra. Estes ideais comuns geralmente promovem a convenção de regras para convívio de uma sociedade, junto com as expectativas de colaborações para o desenvolvimento coletivo. No princípio, tal organização só foi possível a partir de uma visão metafísica. Segundo o Dicionário Online de Português, metafísica é uma: "Teoria filosófica que busca entender a realidade de modo ontológico (natureza do ser), teológico (essência de Deus e da religião) ou suprassensível (além dos sentidos)."

A realidade geralmente é explicada, e compreendida, a partir da referência do Divino. Isso foi visto em diversas partes do mundo em que há organizações sociais entre seres humanos. Mesmo antes de formarmos civilizações nós, como seres humanos, buscávamos explicações para nossa existência, sendo este "eu" interior de cada um, o guia desta pesquisa. Logicamente, esta não é a única explicação para a origem da vida e destes pensamentos interiores que temos. Inclusive, Professora Lúcia Helena Galvão, fala neste podcast aqui, que a busca de explicação sobre a vida só passa a ser "científica" quando se abandonam as visões que explicavam a origem da vida através do divino.

Neste ponto estamos falando sobre Filosofia antiga, lá da Grécia. Filosofia europeia né, que é o que mais se tem acessibilidade e registro. Inclusive, quando se fala em "Ciência" é bom sempre ter em mente a ciência europeia, que é dominante e impôs um padrão pro resto do mundo seguir (por que se acha boa o bastante). Enfim, quando eu digo que "penso logo existo", tô citando um cara da academia de ciências europeias né, então, mais uma vez... Enfim, do onde vem esse "eu" interior que pensa, mas também sente e tem instintos (pois, afinal de contas, apenas mais um animal)?

É um dos enigmas do universo para aqueles que buscam uma explicação fora da lógica do divino.

Uma perguntona, bem grande.

Eu terminei 2023 com essa pergunta na mente, estou com ela até agora, mas hoje de forma mais leve. Isso também foi o que me motivou a escrever novamente neste blog, que foi o refúgio dos mais diversos pensamentos de meu "eu" interior muitos anos atrás. Minhas perguntas me levaram a vários estudos que vou tentar compartilhar aqui, da melhor forma possível. Talvez assim, eu possa dar vazão às diversas análises que meus programas rodando em segundo plano vem fazendo.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Pensando desde o início

Nos últimos dias tenho me sentido cansada mesmo estando de férias. Me peguei hoje pensando que talvez eu não entenda direito o conceito de "descansar", principalmente por que meu trabalho é mental e, de fato, ninguém nunca para de pensar.

Mesmo assim, me peguei investigando as causas da minha fadiga, e, principalmente, do quê exatamente eu estava cansada. Em meio as minhas caminhadas com transtorno de ansiedade generalizada me vi sendo obrigada a entender melhor o funcionamento da mente humana - e, consequentemente, da minha mente -, uma vez que ela estava somatizando sintomas no meu corpo. Por isso, sempre que me pego tendo "pensamentos intrusivos", ou outros alertas vermelhos, tento prestar atenção nas minhas emoções, mente e corpo. Este processo me ajuda a entender qual a raiz dos pensamentos e qual mensagem meu cérebro tenta me passar, pois a mente inconsciente busca me proteger.

Falando assim até parece que eu consigo ter uma relação plena com a minha mente. Mas não é bem assim. As estruturas da mente humana podem ser tortuosas e, até mesmo, cruéis. E, em meio a tudo isso que acontece naturalmente pelo simples fato de estar vivo, está um "ego" passando pela experiência da vida com os recursos que dispõe e da forma que pode. Este ego/eu é complexo e pensa muitas coisas ao mesmo tempo. Em algumas pessoas ele faz eco na forma de diferentes "vozes" internas que, por vezes, falam em uníssono. Essas "vozes" mentais estão presentes em todas as mentes diariamente auxiliando a tomada de decisões, comunicando-se com outras e realizando diversas atividades por meio dos corpos que habitam.

As conversas interiores fazem parte das mentes humanas. Elas formam diversos aspectos da nossa humanidade, principalmente a bússola moral que nos permite viver em sociedade, sendo que, para muitos, sem essas vozes do pensamento não existe vida - Descartes que o diga. A qualidade destes pensamentos, no entanto, depende não só do que a pessoa pensa, mas também de todos os estímulos a que ela é exposta durante sua experiência neste corpo, dessa forma a visão, o olfato, o paladar, o toque e a audição também são fatores que compõe nossas "vozes" interiores. O penso, logo existo não questiona qual é o tipo de pensamento. 

Ao chegar aqui você pode imaginar por que eu vivo cansada. 

Hoje tive vontade de escrever pois, ao conversar com uma amiga, percebi que meu cérebro está sobrecarregado de estímulos do meu corpo físico. Vou te dar um exemplo para que meu raciocínio fique mais claro. Quando eu acordo a primeira coisa que eu faço é pegar meu celular. Invariavelmente olho o Whatsapp (pessoal e empresarial) e migro para o Tiktok. Apesar do estigma que existe sobre a rede, principalmente para as gerações mais antigas, ela pode ser uma plataforma educativa, de notícias, divulgação científica e produções de arte audiovisuais. Meu amigo, quando o algoritmo entende quais são suas preferências, já era. Sendo assim, passo um tempo estimulando minha visão e audição loucamente antes mesmo de tomar uma água.

Mas espera, fica pior. 

Seguindo meu dia passo pelo horrível sentimento de vazio que acompanha todos aquele que trabalham de home office. O silêncio às vezes ajuda, mas para alguém como eu, frequentemente causa ansiedade. Por isso, e pela simples incapacidade de aguentar a frustração de passar algumas horas apenas ouvindo os barulhos do mundo lá fora, eu coloco alegremente meu fone com cancelamento de ruídos. Conectado ao bluetooth do celular essa geringonça é imparável e a internet é infinita. Enquanto realizo diversas tarefas do meu dia a dia - desde escovar os dentes até levar o lixo pra fora - estou ouvindo vídeos, podcasts e séries. Isso se tornou minha religião. Religiosamente estimulo meu cérebro sem parar desde que acordo até quando vou dormir.

Os assuntos que assisto e pesquiso são diversos e muitas vezes eu justifiquei minha atitude dizendo "estou aprendendo inglês ao ouvir a série enquanto lavo a louça"ou "estou aprendendo sobre neurociência enquanto faço esse trabalho administrativo", sempre argumentando que isso era otimizar o meu tempo, já que nunca foi um problema prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo. Na faculdade os professores frequentemente ralhavam comigo por estar desenhando enquanto eles explicavam, mas na verdade era só um jeito de não me dispersar completamente, pois fico facilmente entediada e viajo na minha própria mente.

Esse é outro aspecto particular meu que pode me deixar cansada. Eu invento mundos e histórias, como pode ser visto em minhas páginas ao lado é algo antigo de mim. A imaginação foi um recurso psicológico para enfrentar as adversidades que tive durante minha primeira formação como ser humano. Mas isso é história para outra conversa. De qualquer forma, a imaginação me ajuda e me atrapalha, pois é muito fácil descolar dessa realidade para qualquer outra que eu possa criar, ou participar da criação - por exemplo através de videogames.

Essa senhoras e senhores é minha a minha cabeça. E eu acredito que também é a cabeça de muitas pessoas (chuto que, principalmente, pessoas do sexo feminino) que pensam demais, em diversos assuntos, afazeres, tarefas e trabalhos, ao mesmo tempo. As vozes interiores querem atenção o tempo todo e cada uma defende uma esfera. Como está meu autocuidado? O que é o amor? Pra quê existe a vida? Semana que vem tem médico. Daqui uns dias vencem os boletos. Quanto tempo ainda resta da minha vida? Eu deveria ser uma pessoa melhor. Essa minha roupa não está legal. Preciso pintar os cabelos brancos. Como viver de uma forma mais leve? Afinal de contas, como viver? 

Acho que preciso fazer uma escala para pensar cada pensamento de uma vez, vou tentar organizar. Então, serão 15 minutos para pensar na tese e não fazer nada, 15 minutos para questionar quando a inteligência artificial vai dominar o mundo, 5 minutos para pensar o quanto minha gata é bonita, 5 minutos para pensar sobre a efemeridade da vida e mais 25 para pensar o que eu faria se fosse milionária. Taí, bom planejamento. Daqui pra frente para pensar, só com agendamento, hora marcada. Chega dessa bagunça na cabeça. E chega de ouvir palestra sobre Nietzsche enquanto escrevo sobre educação matemática. Preciso descansar, estava pensando nisso desde o início.