quinta-feira, 31 de outubro de 2024

É possível ser triste e feliz

Uma da tarde e eu vejo a mensagem de minha amiga me contando que uma pessoa querida faleceu. Senti compaixão por sua tristeza e tentei demonstrar minha solidariedade em atos de amor.

Cinco horas depois a mesma amiga me manda outra mensagem contando o resultado positivo de uma seleção que abriria muitas portas para a vida profissional de sua família.

As lágrimas de tristeza agora eram de alegria, o sentimento agridoce que a experiência humana nos proporciona nessa passagem pela vida.

Nos últimos dois meses tenho refletido sobre a efemeridade, ou o caráter transitório e inconstante, da vida. Mesmo que nós busquemos e queiramos estabilidade e uma rotina rígida, com padrões pré-definidos e previsíveis, a vida vem do caos e a ordem que nós tentamos estabelecer tira a beleza da aleatoriedade que permitiu a vida florescer na Terra.

Minha amiga foi apenas um exemplo do que todos nós, em algum momento, vamos experienciar na vida: coisas muito ruins e muito felizes ao mesmo tempo. Dentro de nós todos os sentimentos estão vivos simultaneamente, prontos para aflorar. Os estímulos externos são apenas a fagulha que faz-nos reagir a estas emoções.

Nessa hora é importante perceber que ninguém é totalmente triste e nem totalmente feliz. Nesse passo, fica mais fácil aceitar que sentimos o que temos que sentir, que a tristeza e o choro não são ruins, ao mesmo tempo que a felicidade não uma coisa ou um objetivo a ser alcançado, ela é uma emoção sentida em minutos de nossa existência. 

Ver a vida dessa forma me permite apreciar faíscas de alegria num mar de tristeza, e nesses mares às vezes a única coisa que nos mantém vivos é buscar a superfície, boiar respirando tranquilamente enquanto olha, com concentração e esperança, pra cima.


terça-feira, 22 de outubro de 2024

Palavras mal ditas

Queria te dizer que eu sinto sua falta. Sinto falta da nossa casa e da vida que construímos juntos. Sinto falta de ver a Pantera deitada no balcão da sala tomando sol a tarde. Eu sinto falta de você dizendo que me ama, passando pelo meu escritório só pra me dar um beijo. Eu te amei tanto. Tão profundamente, tão sinceramente. 

O nosso encontro foi tão bonito, foi um amor intelectual, astral, passional. Eu amo seu cérebro. Seu jeito de pensar, sua lógica. Apesar de isso ter sido uma das coisas que nos afastou, eu sempre admirei teu raciocínio. Eu amava conversar com você, sobre tudo e sobre nada. Você é tão inteligente, era tão bom discutir qualquer assunto contigo. 

Eu amei dividir esses anos da minha vida com você, você foi meu primeiro amor, a família que eu escolhi criar. Você foi um sonho realizado, um sonho feliz. Eu queria te dizer tudo isso e muito mais. Queria te pedir perdão de novo, por toda dor que te causei. 

Queria que você soubesse como eu me sinto, como a tua falta me dói. Mas que direito eu tenho de dizer tudo isso? Eu queria te chamar pra conversar, perguntar como você tá indo, como tem sido seus dias. Mas não posso fazer isso com você. Preciso te esquecer e te deixar, enfim, ser feliz.

A nossa história foi linda, mas, no final, tudo isso que eu amava já quase não acontecia, né? Nossas conversas na sacada tomando cerveja ficaram em outra cidade. Lembro de poucos beijos dados no meu escritório depois que nos mudamos pra nossa casa nova, até por que, nos últimos meses eu quase não fiquei em casa. No final, o meu desejo já tinha morrido, eu queria te beijar mas meu corpo não respondia. 

Aí, quando lembro de nós, todos esses pensamentos me doem, me fazem chorar e a saudade da nossa vida aperta. Mas a nossa vida já tinha acabado há algum tempo e, no fim, eu estava sobrevivendo agarrada em memórias boas e alimentando a esperança de repetir essa felicidade no futuro, enquanto sofria no presente... é por isso que eu não falo tudo isso pra você. É por isso que estou focada em seguir em frente.

Você foi um sonho realizado, uma história de amor e respeito. Mas foi. Foi. 


quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Recomece sempre que for preciso

A gente nunca começa um casamento pensando em acabar. 

É certo que relacionamentos saudáveis têm conversas difíceis, e, mesmo que não queiramos terminar, é importante conversar sobre como nos sentiríamos em situações hipotéticas como essa. Nessa hora somos forçados a levar nosso pensamento para um futuro imaginário, onde nos colocamos na pele da pessoa que sente e é essa pessoa que sente no futuro, que nos dará pistas sobre como vamos nos comportar.

Mesmo assim, a reação quando o famigerado fim chega sempre é diferente do que imaginamos. Pensei que morreria, mas na verdade percebi que já tinha morrido faz tempo. A outra pessoa também geralmente não se comporta da maneira como disse que o faria. Pensei que ele não sentiria nada, ele quase morreu. Mas não morreu, se reconstruiu assim como eu tenho feito, e a vida aos poucos vai curando a dor da perda da pessoa que se ama.

Olhando para trás, sou grata por todas as conversas difíceis que tivemos, pois nelas nos comprometemos a manter o respeito acima de tudo. Acima das nossas dores ou ciúmes, prometemos que nosso amor seria baseado no respeito. E nosso amor não acabou. Acredito que quando as pessoas terminam relacionamentos com respeito, o amor perdura, pois as memórias queridas não são substituídas por mágoas recentes ou birras propositais. Ficamos com tudo que bom que passamos no coração, e talvez por isso seja tão difícil olhar o fim de frente e ter coragem de aceitar.

Mas no fim, quando o amor de uma das partes se transforma, é injusto continuar. É preciso olhar para o companheiro e vê-lo como uma pessoa que merece ser feliz, e não somente como um apoio que deve suportar tudo ao seu lado até o fim da vida. É importante ter coragem para se entregar ao amor, para não deixar experiências passadas comprometerem o futuro, mas, da mesma forma, é preciso ter coragem de admitir quando ele já não é aquilo que esperamos ou queremos.

A outra parte por vezes não entende, não aceita, se sente insuficiente, olha para si e pensa "eu perdi por que não sou bom". Mas, a verdade é que quando o amor de alguém muda, não há nada que o outro possa fazer, pois não depende dele, é algo que não se controla e nem se espera. É claro que existem histórias de casais que se separam e, depois de um tempo, se apaixonaram novamente. Nesses casos, o amor mudou, mas não acabou e aquela brasa residual recebe combustível para queimar novamente. Não é impossível, mas também não pode ser algo a ser almejado. Quando o amor muda, o importante é olhar para si mesmo e mergulhar nas águas dos próprios sentimentos para se entender melhor.

A honestidade dói. Dói naquele que fala e também no que escuta. É um corte na alma, pois quando se ama e se casa, mesmo que o casal não seja religioso, em algum nível eles se tornam um só. Esse descolamento arde, como quando arrancamos a casquinha de um machucado. É como se estivéssemos nascendo de novo para ver as possibilidades de uma fase diferente da vida. É um recomeço, e todo recomeço vem de um outro começo que acabou. A vida é cheia de fases e nada fica igual, apenas nossas memórias (que às vezes nem são tão precisas), permanecem inalteradas.

Ninguém se casa pensando em separar, mas acontece. Muitas vezes só se conhece o companheiro escolhido nessas horas, a menos que desde o início o casal tenha tido conversas difíceis, que ninguém quer ter, mas que nos acalentam em momentos em que não conseguimos lidar com mais nada além da dor. Meu casamento foi a realização de um sonho: ter um companheiro de vida. E eu tive, durante o tempo que foi saudável para nós dois. Saio dessa experiência com a dor da perda, mas também com a alegria de ter compartilhado a vida com a pessoa certa, com memórias carinhosas e muito aprendizado.

Hoje eu sou uma pessoa melhor graças a você, eu te amo e te agradeço por isso. 

Não tenha medo de recomeçar, recomece quantas vezes for preciso.