São duas e quinze da tarde e meu carro não pega. Rodo a chave uma, duas... três vezes... e nada do motor funcionar. Ao mesmo tempo todas as luzes do painel começam a piscar como em uma árvore de Natal. Isso tudo já seria estressante por si só, mas o fato de eu estar atrasada para uma reunião de trabalho - que eu vou conduzir - deixa tudo ainda mais irritante, para dizer o mínimo.
Os carros passam por mim, o sinal abre uma vez, fecha e abre de novo. Eu estou ali incrédula, olhando para o painel em polvorosa. Lembro do meu mecânico, mando uma mensagem e ele responde prontamente. Após algumas poucas instruções, consigo fazer minha nave decolar. Muito agradecida, pergunto a ele quanto lhe devo pelo serviço, e ele, rindo me diz: "isso aí não foi nada, não vou lhe cobrar não, fica em paz minha filha". Agradeço novamente a gentileza, enquanto duas palavras ressoam em minha mente "minha filha".
Enquanto viro o volante para a direita e dou a seta para sair, fico refletindo "nossa, quanto tempo não ouço um homem me chamando de minha filha". Instintivamente pensei no pai que não conheci. Ou conheci e não tive, nem me lembro. Conectando os assuntos, penso em uma amiga que tem um pai fenomenal. Ele com certeza saberia como resolver um problema mecânico com facilidade, na verdade, qualquer problema que minha amiga enfrente, ele está do lado ajudando-a a resolver.
Eu nunca senti falta dessa presença masculina, pois minha mãe desempenhava com muita dedicação os dois papéis. Mas hoje, depois de fazer análise, comecei a me dar conta que, psicologicamente, é preciso ter uma figura paterna. Ligo a seta para esquerda e, mudando de pista, vou refletindo como não se pode sentir falta de algo que nunca se teve. Quando mudo de faixa outro motorista me fecha, e ainda buzina para mim, como se eu estivesse errada. Fico quieta, pois estou muito envolvida em meus pensamentos para responder aquele homem que me ataca.
Lembro do dia que minha amiga me contou que seu pai consertou a geladeira que a muito estava sem uso. Na outra semana ele pintou as paredes da sala, apenas por que ela queria mudar de cor. Se ela precisa de um parafuso na parede, ou trocar a resistência do chuveiro, ela pode ligar a qualquer hora. Ele está lá por ela. Eu, por outro lado, fui criada para ser independente, resolver os problemas com minha própria inteligência e força e trabalhar muito para nunca precisar da ajuda de ninguém.
Quando eu era jovem achava essa perspectiva interessante, empoderadora, mas com o passar do tempo percebo o quão cansativo é nunca se apoiar em alguém. Rio com a imagem de minha versão de 21 anos, que se orgulhava, ingenuamente, por sua solitude. Ao parar no semáforo, observo os pedestres atravessando a rua. Uma dupla, em particular, me chama atenção. Era um senhor idoso e uma jovem de mãos dadas. A moça parecia ser jovem demais - e parecida demais com o senhor - para ser sua namorada, então, deduzi que eram pai e filha. Foi interessante olhar para os dois naqueles segundos de caminhada, pois notei que ela andava tranquilamente admirando os prédios e placas do centro da cidade, enquanto ele segurava firmemente sua mão e olhada para frente e para os lados, protegendo-a para que ela pudesse desfrutar de sua vida.
Esse pensamento me levou a uma descoberta muito profunda, que até então anos de análise não tinham me provido: eu queria um pai para me proteger enquanto passo por essa vida. As lágrimas chegam aos olhos mas não permito que caiam. Ainda tenho alguns quilômetros antes de encontrar a segurança de minha casa para descansar.
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