Nos últimos dias tenho me sentido cansada mesmo estando de férias. Me peguei hoje pensando que talvez eu não entenda direito o conceito de "descansar", principalmente por que meu trabalho é mental e, de fato, ninguém nunca para de pensar.
Mesmo assim, me peguei investigando as causas da minha fadiga, e, principalmente, do quê exatamente eu estava cansada. Em meio as minhas caminhadas com transtorno de ansiedade generalizada me vi sendo obrigada a entender melhor o funcionamento da mente humana - e, consequentemente, da minha mente -, uma vez que ela estava somatizando sintomas no meu corpo. Por isso, sempre que me pego tendo "pensamentos intrusivos", ou outros alertas vermelhos, tento prestar atenção nas minhas emoções, mente e corpo. Este processo me ajuda a entender qual a raiz dos pensamentos e qual mensagem meu cérebro tenta me passar, pois a mente inconsciente busca me proteger.
Falando assim até parece que eu consigo ter uma relação plena com a minha mente. Mas não é bem assim. As estruturas da mente humana podem ser tortuosas e, até mesmo, cruéis. E, em meio a tudo isso que acontece naturalmente pelo simples fato de estar vivo, está um "ego" passando pela experiência da vida com os recursos que dispõe e da forma que pode. Este ego/eu é complexo e pensa muitas coisas ao mesmo tempo. Em algumas pessoas ele faz eco na forma de diferentes "vozes" internas que, por vezes, falam em uníssono. Essas "vozes" mentais estão presentes em todas as mentes diariamente auxiliando a tomada de decisões, comunicando-se com outras e realizando diversas atividades por meio dos corpos que habitam.
As conversas interiores fazem parte das mentes humanas. Elas formam diversos aspectos da nossa humanidade, principalmente a bússola moral que nos permite viver em sociedade, sendo que, para muitos, sem essas vozes do pensamento não existe vida - Descartes que o diga. A qualidade destes pensamentos, no entanto, depende não só do que a pessoa pensa, mas também de todos os estímulos a que ela é exposta durante sua experiência neste corpo, dessa forma a visão, o olfato, o paladar, o toque e a audição também são fatores que compõe nossas "vozes" interiores. O penso, logo existo não questiona qual é o tipo de pensamento.
Ao chegar aqui você pode imaginar por que eu vivo cansada.
Hoje tive vontade de escrever pois, ao conversar com uma amiga, percebi que meu cérebro está sobrecarregado de estímulos do meu corpo físico. Vou te dar um exemplo para que meu raciocínio fique mais claro. Quando eu acordo a primeira coisa que eu faço é pegar meu celular. Invariavelmente olho o Whatsapp (pessoal e empresarial) e migro para o Tiktok. Apesar do estigma que existe sobre a rede, principalmente para as gerações mais antigas, ela pode ser uma plataforma educativa, de notícias, divulgação científica e produções de arte audiovisuais. Meu amigo, quando o algoritmo entende quais são suas preferências, já era. Sendo assim, passo um tempo estimulando minha visão e audição loucamente antes mesmo de tomar uma água.
Mas espera, fica pior.
Seguindo meu dia passo pelo horrível sentimento de vazio que acompanha todos aquele que trabalham de home office. O silêncio às vezes ajuda, mas para alguém como eu, frequentemente causa ansiedade. Por isso, e pela simples incapacidade de aguentar a frustração de passar algumas horas apenas ouvindo os barulhos do mundo lá fora, eu coloco alegremente meu fone com cancelamento de ruídos. Conectado ao bluetooth do celular essa geringonça é imparável e a internet é infinita. Enquanto realizo diversas tarefas do meu dia a dia - desde escovar os dentes até levar o lixo pra fora - estou ouvindo vídeos, podcasts e séries. Isso se tornou minha religião. Religiosamente estimulo meu cérebro sem parar desde que acordo até quando vou dormir.
Os assuntos que assisto e pesquiso são diversos e muitas vezes eu justifiquei minha atitude dizendo "estou aprendendo inglês ao ouvir a série enquanto lavo a louça"ou "estou aprendendo sobre neurociência enquanto faço esse trabalho administrativo", sempre argumentando que isso era otimizar o meu tempo, já que nunca foi um problema prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo. Na faculdade os professores frequentemente ralhavam comigo por estar desenhando enquanto eles explicavam, mas na verdade era só um jeito de não me dispersar completamente, pois fico facilmente entediada e viajo na minha própria mente.
Esse é outro aspecto particular meu que pode me deixar cansada. Eu invento mundos e histórias, como pode ser visto em minhas páginas ao lado é algo antigo de mim. A imaginação foi um recurso psicológico para enfrentar as adversidades que tive durante minha primeira formação como ser humano. Mas isso é história para outra conversa. De qualquer forma, a imaginação me ajuda e me atrapalha, pois é muito fácil descolar dessa realidade para qualquer outra que eu possa criar, ou participar da criação - por exemplo através de videogames.
Essa senhoras e senhores é minha a minha cabeça. E eu acredito que também é a cabeça de muitas pessoas (chuto que, principalmente, pessoas do sexo feminino) que pensam demais, em diversos assuntos, afazeres, tarefas e trabalhos, ao mesmo tempo. As vozes interiores querem atenção o tempo todo e cada uma defende uma esfera. Como está meu autocuidado? O que é o amor? Pra quê existe a vida? Semana que vem tem médico. Daqui uns dias vencem os boletos. Quanto tempo ainda resta da minha vida? Eu deveria ser uma pessoa melhor. Essa minha roupa não está legal. Preciso pintar os cabelos brancos. Como viver de uma forma mais leve? Afinal de contas, como viver?
Acho que preciso fazer uma escala para pensar cada pensamento de uma vez, vou tentar organizar. Então, serão 15 minutos para pensar na tese e não fazer nada, 15 minutos para questionar quando a inteligência artificial vai dominar o mundo, 5 minutos para pensar o quanto minha gata é bonita, 5 minutos para pensar sobre a efemeridade da vida e mais 25 para pensar o que eu faria se fosse milionária. Taí, bom planejamento. Daqui pra frente para pensar, só com agendamento, hora marcada. Chega dessa bagunça na cabeça. E chega de ouvir palestra sobre Nietzsche enquanto escrevo sobre educação matemática. Preciso descansar, estava pensando nisso desde o início.