Às vezes me pergunto se ainda sei escrever. Semana passada Charlotte me disse que eu estava menos produtiva, isso me pegou de surpresa devo admitir. Claro que dentro do cronograma que combinamos estou algumas semanas atrasadas, mas, improdutiva não.
Minha mente tem corrido a mil por hora dando várias voltas ao redor do nada. Nem minha playlist já não me ajuda a imaginar um novo desfecho para nossa história, mas não significa que eu não esteja produzindo. A agonia é bastante produtiva. E de repente a playlist tem a infeliz coincidência de tocar uma música com a tua voz. Desmorono.
Sem coragem o suficiente para não ouvi-la, vou fazer um chá. A música acaba antes de a água ferver, acho que demorei uma eternidade para sair de perto do som. Tudo que me volta para esse vazio no peito que tem o teu tamanho me paralisa às vezes. Sei bem que Charlotte espera pelo menos mais vinte páginas amanhã então ponho-me a escrever. Vazia.
Desde que decidimos que você deixaria nosso apartamento, sinto que aqui já não é minha casa. Tento focar no trabalho mas quando vejo nossos móveis feitos sob medida eu lembro de cada vez que você mediu essa parede – todas as vinte e nove vezes – eu olho as persianas, as flores, o tapete... Cada detalhe daquilo que planejamos e fizemos juntos tem nós dois ali e não eu sozinha. Nada disso é meu. Não me sinto em casa escrevendo aqui.
Hoje em dia é difícil escrever sobre amor. Tenho pena de meus pobres personagens paralisados numa época feliz sem fim, sem desfecho e sem realidade. “Desculpe Charlotte, mas não consigo continuar com esse rumo para a história... eu sei que as pessoas esperam outro romance... e-eu... eu entendo. Claro eu vou fazer minha mágica... Boa noite Charlotte”.
De um jeito ou de outro eu vou ter que viver uma grande história de amor. Meu (agora meu, antes nosso) segundo romance tem um prazo apertado para seu lançamento e eu não estou mais conseguindo enrolar a editora. Melancolia não combina muito com o capítulo de vitórias que nossos personagens estavam vivendo em seu hospital cheio de romances e intrigas, adrenalina de salvar vidas e as falhas da administração. Seria a continuação do romance, contando o depois do “felizes para sempre” em que terminou o primeiro livro.
Acontece que, nossa vida estava sendo tão perfeita quanto de nossos personagens e então era fácil colocar toda a animação e entusiasmo naquelas páginas cheias de diálogos poéticos e amorosos, mas hoje em dia tem sido um esforço gigante apenas reler os últimos parágrafos.
Descobri que a personagem principal não é nada do que parecia ser e que seu par romântico não passa de alguém que não consegue compartilhar a vida com outras pessoas. Esta descoberta causou uma grande reviravolta em minha mente como autora e me fez querer mudar o rumo da minha história de uma forma radicalmente louca.
Eu queria fazer minha personagem ir embora para Paris, tomar chá e comer croissant, conhecer um outro par romântico que soubesse respeitá-la por quem ela é e não tentasse moldá-la a sua vontade, mas aí, veja bem depois de toda esta reflexão, vem Charlotte e me diz que eu estou improdutiva! Pior! Diz que o público não vai aceitar que o casal principal rompa e que vamos perder vendas.
Que pena tenho eu dos meus pobres personagens. Como eu queria fazer deles o máximo que podem ser. Como queria que fossem felizes. Mas, para eles resta apenas do martírio de um “felizes para sempre” de verdade verdadeira que ficará eternizado em páginas que vamos imprimir. Quanto a mim, bom, vou imaginar como seria esse felizes para sempre com outro alguém, e fazer minhas malas para Paris.
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