quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A falta que faz um pai

São duas e quinze da tarde e meu carro não pega. Rodo a chave uma, duas... três vezes... e nada do motor funcionar. Ao mesmo tempo todas as luzes do painel começam a piscar como em uma árvore de Natal. Isso tudo já seria estressante por si só, mas o fato de eu estar atrasada para uma reunião de trabalho - que eu vou conduzir - deixa tudo ainda mais irritante, para dizer o mínimo.

Os carros passam por mim, o sinal abre uma vez, fecha e abre de novo. Eu estou ali incrédula, olhando para o painel em polvorosa. Lembro do meu mecânico, mando uma mensagem e ele responde prontamente. Após algumas poucas instruções, consigo fazer minha nave decolar. Muito agradecida, pergunto a ele quanto lhe devo pelo serviço, e ele, rindo me diz: "isso aí não foi nada, não vou lhe cobrar não, fica em paz minha filha". Agradeço novamente a gentileza, enquanto duas palavras ressoam em minha mente "minha filha".

Enquanto viro o volante para a direita e dou a seta para sair, fico refletindo "nossa, quanto tempo não ouço um homem me chamando de minha filha". Instintivamente pensei no pai que não conheci. Ou conheci e não tive, nem me lembro. Conectando os assuntos, penso em uma amiga que tem um pai fenomenal. Ele com certeza saberia como resolver um problema mecânico com facilidade, na verdade, qualquer problema que minha amiga enfrente, ele está do lado ajudando-a a resolver.

Eu nunca senti falta dessa presença masculina, pois minha mãe desempenhava com muita dedicação os dois papéis. Mas hoje, depois de fazer análise, comecei a me dar conta que, psicologicamente, é preciso ter uma figura paterna. Ligo a seta para esquerda e, mudando de pista, vou refletindo como não se pode sentir falta de algo que nunca se teve. Quando mudo de faixa outro motorista me fecha, e ainda buzina para mim, como se eu estivesse errada. Fico quieta, pois estou muito envolvida em meus pensamentos para responder aquele homem que me ataca.

Lembro do dia que minha amiga me contou que seu pai consertou a geladeira que a muito estava sem uso. Na outra semana ele pintou as paredes da sala, apenas por que ela queria mudar de cor. Se ela precisa de um parafuso na parede, ou trocar a resistência do chuveiro, ela pode ligar a qualquer hora. Ele está lá por ela. Eu, por outro lado, fui criada para ser independente, resolver os problemas com minha própria inteligência e força e trabalhar muito para nunca precisar da ajuda de ninguém.

Quando eu era jovem achava essa perspectiva interessante, empoderadora, mas com o passar do tempo percebo o quão cansativo é nunca se apoiar em alguém. Rio com a imagem de minha versão de 21 anos, que se orgulhava, ingenuamente, por sua solitude. Ao parar no semáforo, observo os pedestres atravessando a rua. Uma dupla, em particular, me chama atenção. Era um senhor idoso e uma jovem de mãos dadas. A moça parecia ser jovem demais - e parecida demais com o senhor - para ser sua namorada, então, deduzi que eram pai e filha. Foi interessante olhar para os dois naqueles segundos de caminhada, pois notei que ela andava tranquilamente admirando os prédios e placas do centro da cidade, enquanto ele segurava firmemente sua mão e olhada para frente e para os lados, protegendo-a para que ela pudesse desfrutar de sua vida.

Esse pensamento me levou a uma descoberta muito profunda, que até então anos de análise não tinham me provido: eu queria um pai para me proteger enquanto passo por essa vida. As lágrimas chegam aos olhos mas não permito que caiam. Ainda tenho alguns quilômetros antes de encontrar a segurança de minha casa para descansar.


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

É possível ser triste e feliz

Uma da tarde e eu vejo a mensagem de minha amiga me contando que uma pessoa querida faleceu. Senti compaixão por sua tristeza e tentei demonstrar minha solidariedade em atos de amor.

Cinco horas depois a mesma amiga me manda outra mensagem contando o resultado positivo de uma seleção que abriria muitas portas para a vida profissional de sua família.

As lágrimas de tristeza agora eram de alegria, o sentimento agridoce que a experiência humana nos proporciona nessa passagem pela vida.

Nos últimos dois meses tenho refletido sobre a efemeridade, ou o caráter transitório e inconstante, da vida. Mesmo que nós busquemos e queiramos estabilidade e uma rotina rígida, com padrões pré-definidos e previsíveis, a vida vem do caos e a ordem que nós tentamos estabelecer tira a beleza da aleatoriedade que permitiu a vida florescer na Terra.

Minha amiga foi apenas um exemplo do que todos nós, em algum momento, vamos experienciar na vida: coisas muito ruins e muito felizes ao mesmo tempo. Dentro de nós todos os sentimentos estão vivos simultaneamente, prontos para aflorar. Os estímulos externos são apenas a fagulha que faz-nos reagir a estas emoções.

Nessa hora é importante perceber que ninguém é totalmente triste e nem totalmente feliz. Nesse passo, fica mais fácil aceitar que sentimos o que temos que sentir, que a tristeza e o choro não são ruins, ao mesmo tempo que a felicidade não uma coisa ou um objetivo a ser alcançado, ela é uma emoção sentida em minutos de nossa existência. 

Ver a vida dessa forma me permite apreciar faíscas de alegria num mar de tristeza, e nesses mares às vezes a única coisa que nos mantém vivos é buscar a superfície, boiar respirando tranquilamente enquanto olha, com concentração e esperança, pra cima.


terça-feira, 22 de outubro de 2024

Palavras mal ditas

Queria te dizer que eu sinto sua falta. Sinto falta da nossa casa e da vida que construímos juntos. Sinto falta de ver a Pantera deitada no balcão da sala tomando sol a tarde. Eu sinto falta de você dizendo que me ama, passando pelo meu escritório só pra me dar um beijo. Eu te amei tanto. Tão profundamente, tão sinceramente. 

O nosso encontro foi tão bonito, foi um amor intelectual, astral, passional. Eu amo seu cérebro. Seu jeito de pensar, sua lógica. Apesar de isso ter sido uma das coisas que nos afastou, eu sempre admirei teu raciocínio. Eu amava conversar com você, sobre tudo e sobre nada. Você é tão inteligente, era tão bom discutir qualquer assunto contigo. 

Eu amei dividir esses anos da minha vida com você, você foi meu primeiro amor, a família que eu escolhi criar. Você foi um sonho realizado, um sonho feliz. Eu queria te dizer tudo isso e muito mais. Queria te pedir perdão de novo, por toda dor que te causei. 

Queria que você soubesse como eu me sinto, como a tua falta me dói. Mas que direito eu tenho de dizer tudo isso? Eu queria te chamar pra conversar, perguntar como você tá indo, como tem sido seus dias. Mas não posso fazer isso com você. Preciso te esquecer e te deixar, enfim, ser feliz.

A nossa história foi linda, mas, no final, tudo isso que eu amava já quase não acontecia, né? Nossas conversas na sacada tomando cerveja ficaram em outra cidade. Lembro de poucos beijos dados no meu escritório depois que nos mudamos pra nossa casa nova, até por que, nos últimos meses eu quase não fiquei em casa. No final, o meu desejo já tinha morrido, eu queria te beijar mas meu corpo não respondia. 

Aí, quando lembro de nós, todos esses pensamentos me doem, me fazem chorar e a saudade da nossa vida aperta. Mas a nossa vida já tinha acabado há algum tempo e, no fim, eu estava sobrevivendo agarrada em memórias boas e alimentando a esperança de repetir essa felicidade no futuro, enquanto sofria no presente... é por isso que eu não falo tudo isso pra você. É por isso que estou focada em seguir em frente.

Você foi um sonho realizado, uma história de amor e respeito. Mas foi. Foi. 


quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Recomece sempre que for preciso

A gente nunca começa um casamento pensando em acabar. 

É certo que relacionamentos saudáveis têm conversas difíceis, e, mesmo que não queiramos terminar, é importante conversar sobre como nos sentiríamos em situações hipotéticas como essa. Nessa hora somos forçados a levar nosso pensamento para um futuro imaginário, onde nos colocamos na pele da pessoa que sente e é essa pessoa que sente no futuro, que nos dará pistas sobre como vamos nos comportar.

Mesmo assim, a reação quando o famigerado fim chega sempre é diferente do que imaginamos. Pensei que morreria, mas na verdade percebi que já tinha morrido faz tempo. A outra pessoa também geralmente não se comporta da maneira como disse que o faria. Pensei que ele não sentiria nada, ele quase morreu. Mas não morreu, se reconstruiu assim como eu tenho feito, e a vida aos poucos vai curando a dor da perda da pessoa que se ama.

Olhando para trás, sou grata por todas as conversas difíceis que tivemos, pois nelas nos comprometemos a manter o respeito acima de tudo. Acima das nossas dores ou ciúmes, prometemos que nosso amor seria baseado no respeito. E nosso amor não acabou. Acredito que quando as pessoas terminam relacionamentos com respeito, o amor perdura, pois as memórias queridas não são substituídas por mágoas recentes ou birras propositais. Ficamos com tudo que bom que passamos no coração, e talvez por isso seja tão difícil olhar o fim de frente e ter coragem de aceitar.

Mas no fim, quando o amor de uma das partes se transforma, é injusto continuar. É preciso olhar para o companheiro e vê-lo como uma pessoa que merece ser feliz, e não somente como um apoio que deve suportar tudo ao seu lado até o fim da vida. É importante ter coragem para se entregar ao amor, para não deixar experiências passadas comprometerem o futuro, mas, da mesma forma, é preciso ter coragem de admitir quando ele já não é aquilo que esperamos ou queremos.

A outra parte por vezes não entende, não aceita, se sente insuficiente, olha para si e pensa "eu perdi por que não sou bom". Mas, a verdade é que quando o amor de alguém muda, não há nada que o outro possa fazer, pois não depende dele, é algo que não se controla e nem se espera. É claro que existem histórias de casais que se separam e, depois de um tempo, se apaixonaram novamente. Nesses casos, o amor mudou, mas não acabou e aquela brasa residual recebe combustível para queimar novamente. Não é impossível, mas também não pode ser algo a ser almejado. Quando o amor muda, o importante é olhar para si mesmo e mergulhar nas águas dos próprios sentimentos para se entender melhor.

A honestidade dói. Dói naquele que fala e também no que escuta. É um corte na alma, pois quando se ama e se casa, mesmo que o casal não seja religioso, em algum nível eles se tornam um só. Esse descolamento arde, como quando arrancamos a casquinha de um machucado. É como se estivéssemos nascendo de novo para ver as possibilidades de uma fase diferente da vida. É um recomeço, e todo recomeço vem de um outro começo que acabou. A vida é cheia de fases e nada fica igual, apenas nossas memórias (que às vezes nem são tão precisas), permanecem inalteradas.

Ninguém se casa pensando em separar, mas acontece. Muitas vezes só se conhece o companheiro escolhido nessas horas, a menos que desde o início o casal tenha tido conversas difíceis, que ninguém quer ter, mas que nos acalentam em momentos em que não conseguimos lidar com mais nada além da dor. Meu casamento foi a realização de um sonho: ter um companheiro de vida. E eu tive, durante o tempo que foi saudável para nós dois. Saio dessa experiência com a dor da perda, mas também com a alegria de ter compartilhado a vida com a pessoa certa, com memórias carinhosas e muito aprendizado.

Hoje eu sou uma pessoa melhor graças a você, eu te amo e te agradeço por isso. 

Não tenha medo de recomeçar, recomece quantas vezes for preciso.

sábado, 14 de setembro de 2024

Uma história com final

No quarto dele a única luz vinha da tela do computador, e poucos reflexos dos carros e postes do lado de fora do prédio. Eram 3 da manhã. Eles estavam jogados no colchão, sem roupas, ofegantes. Já era a terceira vez que tinham transado aquela noite, mas alguma coisa foi diferente dessa vez. O sentimento passou do abstrato para o físico, e quando ela respirava sentia seu peito quente. Ela sentia tanto tesão por ele que, às vezes, no meio do sexo, tinha vontade de chorar. Já ele, ria. E ela amava vê-lo sorrir.

Ele olhava nos olhos dela, quando ela estava por cima, com uma expressão atônita. Pasmo ou admirado, ela nunca sabia. Quando ela olhava de volta em seus olhos, tudo que ela queria era conseguir ler seus pensamentos para entender o por quê do riso dele segundos antes de gozar. No fundo ela sabia que era felicidade, porque era o que ela também sentia. Uma música diferente toca ao fundo, alternativa e internacional. Lá fora chove, mas o calor não passa. Um caminhão de bombeiros passa na avenida, apressado e aos berros. 

Com o barulho ela abriu os olhos, como se o som da sirene fosse um cabo elástico que a puxou de volta para a realidade. Sua alma voltou para o corpo lentamente, ainda inebriada e entorpecida. Quando abriu os olhos encarou o homem deitado nu ao seu lado, de barriga para baixo e olhos fechados, prazerosamente descansando. Ela sorriu satisfeita, se aproximou devagar e, enquanto tocava suas costas com a ponta dos dedos delicadamente, colocou sua coxa em cima dele. Ele suspirou. 

Ela gostava da textura da pele dele. Especialmente depois de transar. De olhos bem abertos, ela observava enquanto ele repousava em silêncio, aproveitando suas carícias. Nessa hora, ela ficou ansiosa. Borboletas subiram pelo estômago, rodaram várias vezes ao redor de seu coração e explodiram para fora de seu peito, voando para fora de sua boca como palavras velozes e trêmulas.

- Eu amo você. - Silêncio - E você não precisa me dizer nada em retorno, eu só precisava falar o que eu sinto. Eu sinto um carinho profundo por você, e também uma paixão muito louca e tesão... eu amo como a sua pele responde ao meu toque e como a gente se beija, primeiro devagar e depois com força. Eu amo a forma como você me trata, o que meu corpo sente com você... cara! Eu tô completamente apaixonada por você. De verdade. Meu coração bate forte quando eu te vejo chegar e acelera quando você me abraça e me beija. É uma sensação física, é como se eu te amasse com o meu corpo. Eu não sei bem como lidar com isso ainda, mas precisava dizer por que já estava segurando isso a muito tempo. Desculpe se isso foi muito profundo ou súbito ou errado ou doido. Não quero te deixar desconfortável de forma alguma e... - ela parou de fazer o carinho nas costas dele e começou a levantar sua perna para sair da cama. Ele percebeu o movimento e rapidamente a segurou naquela posição. 

- ... e o quê? Continua, estou te ouvindo. - Disse ele, de olhos fechados.

A música terminou e alguns raros segundos de silêncio pairaram pelo ar daquele quarto. Segundos que pareceram minutos dentro da cabeça ansiosa dele, esperando ela falar, e dela, organizando suas ideias para tentar se explicar. Ela, de repente, se deu conta do que acabara de fazer, como se novamente sua alma fosse sugada para dentro do corpo e a realidade batera a sua porta, ferozmente. A coragem que a fez subitamente se declarar se esvaiu de seu ser, e sua respiração começou a ficar inconstante. Ela disse, transparecendo uma calma que não existia:

- E que as coisas mudem entre nós, ou que você se sinta pressionado a sentir o mesmo. Eu sei que somos pessoas diferentes e - ele a interrompeu e só abriu os olhos para dizer:

- Eu amo você também. Nada vai mudar. Vem me abraçar.

A próxima música começou, e aquela ambos conheciam bem. Aconchegaram-se no abraço um do outro e dormiram felizes. Afinal de contas, aquele ainda não era o último dia, e quando este viesse, seguiriam em paz.


sábado, 13 de janeiro de 2024

Programas rodando em segundo plano

Com o passar do tempo fazendo terapia na linha da psicanálise, fui identificando alguns padrões neurais que adquiri. Pensar neles sempre me deixa cansada, pois geralmente estão associados a traumas emocionais, por isso procuro me manter ocupada pensando em outras coisas.

Mesmo assim, meu subconsciente continua trabalhando enquanto o tempo passa, seja dormindo ou acordada, a análise de mim mesma continua acontecendo. De vez em quando essa análise emerge à superfície, fornecendo novas informações que elevam o padrão e complexidade da análise do meu "eu" interior: aquele que racionaliza e que sente, não necessariamente nesta ordem. Gosto de pensar que essa voz interna, que me dita as palavras que escrevo agora, é este "eu". Este "eu" que existe, pensa e sente.

Este eu trabalha continuamente. E foi assim desde que surgiu a minha espécie de seres vivos neste planeta. Todos temos essa energia cerebral que nos guia. Essa energia pode ser comparada a programas rodando em segundo plano, como nos computadores. Esses programas foram definidos pelo ChatGPT como:

"Programas em segundo plano são aplicativos ou processos que operam sem a interação direta do usuário, executando tarefas específicas enquanto outras atividades estão em andamento. Essa prática otimiza a eficiência do sistema operacional, permitindo a execução simultânea de múltiplas tarefas. Autores como Tanenbaum e Silberschatz, em seus livros sobre sistemas operacionais, discutem a importância e o funcionamento desses programas em segundo plano."

Achei uma definição satisfatória e encontrei um livro do Tanenbaum, disponível aqui.

De qualquer forma, essa comparação é apenas para exemplificar o entendi até agora sobre como se comporta minha mente.

E não só a minha, todos nós, seres humanos, somos assim.

A diferença é que alguns de nós não se importa muito com questões da mente, um exemplo disso é a torta de climão que vários lugares serve ao abordar doenças mentais. O fato é que ninguém quer passar muito tempo pensando sobre a mente ou sobre emoções. Nossos instintos mais profundos são deixar essas questões rodando apenas como programas de segundo plano. A vontade que dá é só ignorar que as complexidades pessoais existem, buscando produtividade diária, sucesso pessoal (em todas as suas esferas) e reproduzindo o estilo de vida dominante neste planeta. 

Esta, pelo menos, é a vontade ensinada. Ela apresenta várias opções para substituir diversos pensamentos perigosos para as sociedades, incutindo nas pessoas ideias comuns para explicar fenômenos mentais e até mesmo a existência da mente, visto que os seres humanos apresentam um grau de racionalização e cooperação diferenciada dos animais da Terra. Estes ideais comuns geralmente promovem a convenção de regras para convívio de uma sociedade, junto com as expectativas de colaborações para o desenvolvimento coletivo. No princípio, tal organização só foi possível a partir de uma visão metafísica. Segundo o Dicionário Online de Português, metafísica é uma: "Teoria filosófica que busca entender a realidade de modo ontológico (natureza do ser), teológico (essência de Deus e da religião) ou suprassensível (além dos sentidos)."

A realidade geralmente é explicada, e compreendida, a partir da referência do Divino. Isso foi visto em diversas partes do mundo em que há organizações sociais entre seres humanos. Mesmo antes de formarmos civilizações nós, como seres humanos, buscávamos explicações para nossa existência, sendo este "eu" interior de cada um, o guia desta pesquisa. Logicamente, esta não é a única explicação para a origem da vida e destes pensamentos interiores que temos. Inclusive, Professora Lúcia Helena Galvão, fala neste podcast aqui, que a busca de explicação sobre a vida só passa a ser "científica" quando se abandonam as visões que explicavam a origem da vida através do divino.

Neste ponto estamos falando sobre Filosofia antiga, lá da Grécia. Filosofia europeia né, que é o que mais se tem acessibilidade e registro. Inclusive, quando se fala em "Ciência" é bom sempre ter em mente a ciência europeia, que é dominante e impôs um padrão pro resto do mundo seguir (por que se acha boa o bastante). Enfim, quando eu digo que "penso logo existo", tô citando um cara da academia de ciências europeias né, então, mais uma vez... Enfim, do onde vem esse "eu" interior que pensa, mas também sente e tem instintos (pois, afinal de contas, apenas mais um animal)?

É um dos enigmas do universo para aqueles que buscam uma explicação fora da lógica do divino.

Uma perguntona, bem grande.

Eu terminei 2023 com essa pergunta na mente, estou com ela até agora, mas hoje de forma mais leve. Isso também foi o que me motivou a escrever novamente neste blog, que foi o refúgio dos mais diversos pensamentos de meu "eu" interior muitos anos atrás. Minhas perguntas me levaram a vários estudos que vou tentar compartilhar aqui, da melhor forma possível. Talvez assim, eu possa dar vazão às diversas análises que meus programas rodando em segundo plano vem fazendo.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Pensando desde o início

Nos últimos dias tenho me sentido cansada mesmo estando de férias. Me peguei hoje pensando que talvez eu não entenda direito o conceito de "descansar", principalmente por que meu trabalho é mental e, de fato, ninguém nunca para de pensar.

Mesmo assim, me peguei investigando as causas da minha fadiga, e, principalmente, do quê exatamente eu estava cansada. Em meio as minhas caminhadas com transtorno de ansiedade generalizada me vi sendo obrigada a entender melhor o funcionamento da mente humana - e, consequentemente, da minha mente -, uma vez que ela estava somatizando sintomas no meu corpo. Por isso, sempre que me pego tendo "pensamentos intrusivos", ou outros alertas vermelhos, tento prestar atenção nas minhas emoções, mente e corpo. Este processo me ajuda a entender qual a raiz dos pensamentos e qual mensagem meu cérebro tenta me passar, pois a mente inconsciente busca me proteger.

Falando assim até parece que eu consigo ter uma relação plena com a minha mente. Mas não é bem assim. As estruturas da mente humana podem ser tortuosas e, até mesmo, cruéis. E, em meio a tudo isso que acontece naturalmente pelo simples fato de estar vivo, está um "ego" passando pela experiência da vida com os recursos que dispõe e da forma que pode. Este ego/eu é complexo e pensa muitas coisas ao mesmo tempo. Em algumas pessoas ele faz eco na forma de diferentes "vozes" internas que, por vezes, falam em uníssono. Essas "vozes" mentais estão presentes em todas as mentes diariamente auxiliando a tomada de decisões, comunicando-se com outras e realizando diversas atividades por meio dos corpos que habitam.

As conversas interiores fazem parte das mentes humanas. Elas formam diversos aspectos da nossa humanidade, principalmente a bússola moral que nos permite viver em sociedade, sendo que, para muitos, sem essas vozes do pensamento não existe vida - Descartes que o diga. A qualidade destes pensamentos, no entanto, depende não só do que a pessoa pensa, mas também de todos os estímulos a que ela é exposta durante sua experiência neste corpo, dessa forma a visão, o olfato, o paladar, o toque e a audição também são fatores que compõe nossas "vozes" interiores. O penso, logo existo não questiona qual é o tipo de pensamento. 

Ao chegar aqui você pode imaginar por que eu vivo cansada. 

Hoje tive vontade de escrever pois, ao conversar com uma amiga, percebi que meu cérebro está sobrecarregado de estímulos do meu corpo físico. Vou te dar um exemplo para que meu raciocínio fique mais claro. Quando eu acordo a primeira coisa que eu faço é pegar meu celular. Invariavelmente olho o Whatsapp (pessoal e empresarial) e migro para o Tiktok. Apesar do estigma que existe sobre a rede, principalmente para as gerações mais antigas, ela pode ser uma plataforma educativa, de notícias, divulgação científica e produções de arte audiovisuais. Meu amigo, quando o algoritmo entende quais são suas preferências, já era. Sendo assim, passo um tempo estimulando minha visão e audição loucamente antes mesmo de tomar uma água.

Mas espera, fica pior. 

Seguindo meu dia passo pelo horrível sentimento de vazio que acompanha todos aquele que trabalham de home office. O silêncio às vezes ajuda, mas para alguém como eu, frequentemente causa ansiedade. Por isso, e pela simples incapacidade de aguentar a frustração de passar algumas horas apenas ouvindo os barulhos do mundo lá fora, eu coloco alegremente meu fone com cancelamento de ruídos. Conectado ao bluetooth do celular essa geringonça é imparável e a internet é infinita. Enquanto realizo diversas tarefas do meu dia a dia - desde escovar os dentes até levar o lixo pra fora - estou ouvindo vídeos, podcasts e séries. Isso se tornou minha religião. Religiosamente estimulo meu cérebro sem parar desde que acordo até quando vou dormir.

Os assuntos que assisto e pesquiso são diversos e muitas vezes eu justifiquei minha atitude dizendo "estou aprendendo inglês ao ouvir a série enquanto lavo a louça"ou "estou aprendendo sobre neurociência enquanto faço esse trabalho administrativo", sempre argumentando que isso era otimizar o meu tempo, já que nunca foi um problema prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo. Na faculdade os professores frequentemente ralhavam comigo por estar desenhando enquanto eles explicavam, mas na verdade era só um jeito de não me dispersar completamente, pois fico facilmente entediada e viajo na minha própria mente.

Esse é outro aspecto particular meu que pode me deixar cansada. Eu invento mundos e histórias, como pode ser visto em minhas páginas ao lado é algo antigo de mim. A imaginação foi um recurso psicológico para enfrentar as adversidades que tive durante minha primeira formação como ser humano. Mas isso é história para outra conversa. De qualquer forma, a imaginação me ajuda e me atrapalha, pois é muito fácil descolar dessa realidade para qualquer outra que eu possa criar, ou participar da criação - por exemplo através de videogames.

Essa senhoras e senhores é minha a minha cabeça. E eu acredito que também é a cabeça de muitas pessoas (chuto que, principalmente, pessoas do sexo feminino) que pensam demais, em diversos assuntos, afazeres, tarefas e trabalhos, ao mesmo tempo. As vozes interiores querem atenção o tempo todo e cada uma defende uma esfera. Como está meu autocuidado? O que é o amor? Pra quê existe a vida? Semana que vem tem médico. Daqui uns dias vencem os boletos. Quanto tempo ainda resta da minha vida? Eu deveria ser uma pessoa melhor. Essa minha roupa não está legal. Preciso pintar os cabelos brancos. Como viver de uma forma mais leve? Afinal de contas, como viver? 

Acho que preciso fazer uma escala para pensar cada pensamento de uma vez, vou tentar organizar. Então, serão 15 minutos para pensar na tese e não fazer nada, 15 minutos para questionar quando a inteligência artificial vai dominar o mundo, 5 minutos para pensar o quanto minha gata é bonita, 5 minutos para pensar sobre a efemeridade da vida e mais 25 para pensar o que eu faria se fosse milionária. Taí, bom planejamento. Daqui pra frente para pensar, só com agendamento, hora marcada. Chega dessa bagunça na cabeça. E chega de ouvir palestra sobre Nietzsche enquanto escrevo sobre educação matemática. Preciso descansar, estava pensando nisso desde o início.