Ai Matilde, afinal de contas, qualé o teu problema? Você vive reclamando da segunda-feira, da chuva e do calor. Fala que nesse mundo nunca vai encontrar amor. Cê nem se ama Matilde! Comé que você quer que a vida seja mais bonita se você odeia teu reflexo no espelho, sempre ta gorda ou ta feia. Matilde, explica pra mim quem vai te amar se você não se ama? Você pode continuar esperando a semana inteira pela sexta e o inverno inteiro pelo verão que não vai adiantar, por que quando a sexta chegar o final de semana vai ser um tédio e quando o verão chegar você não vai aguentar o calor. Ai Matilde, acorda pra vida menina, o problema não ta na segunda-feira ou na chuva, o problema ta em você!
sábado, 27 de junho de 2026
Eu escrevo
Acho incrível quando eu conto pra alguém que escrevo e essa pessoa tem a audácia de me pedir pra ler. São instantes desconfortáveis pra minha mente. Tudo que eu escrevo antes foi sentido, e por isso raramente faz sentido. Parece que depois da pessoa ler meus textos eu vou ter que marcar um café pra explicar o que me levou a pensar aquilo. É um paradoxo, porque ao mesmo tempo que eu tenho essa urgência em vomitar essa voz que fica na minha mente eu tenho receio, tenho medo. Afinal de contas quem poderia me compreender se nem mesma eu entendo?
Não me lembro pra quem era essa carta
Não há dentro de mim espaço para escrever sobre você. Toda minha sensibilidade e inspiração foram roubadas pela decepção que não me matou. Eu não tenho tempo nem pra imaginar. Sinceramente, a minha garganta ainda tem um nó. Hoje em dia não consigo te considerar nada além de alguém aleatório e passageiro. Me desculpe a honestidade, eu sempre fui assim. Eu sei que você já sabe o que eu penso, ou pelo menos acredita saber. E também não é que eu não goste de você, por que gosto. Te quero ver, beijar e estar. Faz sentido estar do teu lado agora, ainda mais porque abertamente você sabe que eu não vou ficar. Sou passageira na tua vida porque escolhi ser motorista da minha. Além disso, te quero livre. Feliz, ou pelo menos satisfeito. Não sou discreta porque carinho está no meu DNA, onde eu te ver eu vou te beijar. Se eu puder, com você eu vou estar. Mas vou estar hoje, agora. Te empresto meu corpo, minha cama e meu travesseiro. Canto com você, bebo com você, viajo com você nos assuntos mais loucos e sensatos que não falamos com todo mundo. Te cheiro. Te beijo. Te ensino a dançar. E dançamos. Ficamos nessa dança até alguém se cansar ou trocar de par. Eu gosto de estar com você e hoje é o que me interessa pensar. Até porque, tem muitas outras pequenas coisas que não precisamos nos importar. O que é então que a gente tem? Tem amizade meu bem, amizade mais colorida que um dia de carnaval.
Sorria
Sinto meu estômago arder como se tivesse tomado uma dose de tequila.
A diferença é que desta vez, ao invés de engolir eu ponho pra fora.
Lágrimas, elas não deveriam vir do estômago, certo?
Queria um dia entender por que então eu as sinto subir lentamente pelo meu esôfago.
Chegando na garganta, aquele famoso nó.
Tem algo místico em derramar essa dor pra fora do corpo. Transbordar.
Eu só queria não sentir todo tempo. Queria ser mais forte. Queria ser mais forte por que às vezes na fila do banco tenho que engolir essa tequila quente que faz meu estômago doer.
Vejo mulheres enfrentando problemas reais dos quais eu não tenho ideia e, quando me vejo, me sinto fraca. Parece que toda minha dor não passa de um drama de adolescente. Será? Mas se for isso porque agora é tão diferente? Se for só coisa de gente imatura que não sabe lidar com os problemas da vida adulta por que é que agora parece que dói muito mais?
Por que dói agora.
O que doeu já não pode me machucar e o que ainda há de doer nem sei como vou sentir. Só sei que hoje a dor é real.
Parece um amontoado de coisas que, nem isoladamente não consigo lidar, explodindo todas juntas. Eu preferia levar um tiro do que continuar a sentir isso, pelo menos seria uma dor que eu não conheço.
O que me cansa é sofrer pelos mesmos problemas com mais intensidade, Trabalho, estudos, manter uma casa, pagar minhas roupas, ter disciplina.
Não usar drogas.
Ser sociável.
Ter autocontrole.
Ser amável.
Não fumar.
Fazer exercícios.
Não transar com estranhos.
Beber 2 litros de água por dia.
E, o pior de todos,
SORRIR.
Sorria! Você está sendo filmado por aqueles espíritos que vão tirar sarro por toda a eternidade dos erros que você cometeu. Sorria, você tem uma família! Sorria você tem bom trabalho! Você tem um carro, amigos, dinheiro, um teto sob sua cabeça! O que mais você poderia desejar? Como assim você não consegue sorrir? Tente mais!!
“Se esforce mais. Tente com mais afinco. Você não está se esforçando o bastante. Você ganha muito pelo que faz. Já sei amiga! Você deveria viver do jeito que EU acho certo, por que quando EU passei por isso EU superei EU consegui, se EU consegui você consegue amiga, toma aqui um livro de auto ajuda”
Sorria. Sorria chorando, só não pare de sorrir, se você sorrir muito com sorte quando perguntarem se está tudo bem e você responder: “Tudo ótimo e você?” vai quase parecer genuíno. Sorria pra disfarçar. Engole essa tequila pra disfarçar. Mostre toda sua sensualidade e seu glamour, deixe que penetrem seu corpo mas nunca seu coração. Sorria menina, posta uma foto bem bonita com legenda de poesia, angarie muitas curtidas, faça um story da sua comida fitness, olha só como é fácil ser feliz.
Talvez menina, se você se esforçar muito para ser o que eles querem, se você tentar com a energia e o entusiasmo que eles te pedem, talvez, se você sorrir muito com alguma sorte ninguém perceba que há muito tempo você
já
morreu.
Diários de Tracie McGoey
Às vezes me pergunto se ainda sei escrever. Semana passada Charlotte me disse que eu estava menos produtiva, isso me pegou de surpresa devo admitir. Claro que dentro do cronograma que combinamos estou algumas semanas atrasadas, mas, improdutiva não.
Minha mente tem corrido a mil por hora dando várias voltas ao redor do nada. Nem minha playlist já não me ajuda a imaginar um novo desfecho para nossa história, mas não significa que eu não esteja produzindo. A agonia é bastante produtiva. E de repente a playlist tem a infeliz coincidência de tocar uma música com a tua voz. Desmorono.
Sem coragem o suficiente para não ouvi-la, vou fazer um chá. A música acaba antes de a água ferver, acho que demorei uma eternidade para sair de perto do som. Tudo que me volta para esse vazio no peito que tem o teu tamanho me paralisa às vezes. Sei bem que Charlotte espera pelo menos mais vinte páginas amanhã então ponho-me a escrever. Vazia.
Desde que decidimos que você deixaria nosso apartamento, sinto que aqui já não é minha casa. Tento focar no trabalho mas quando vejo nossos móveis feitos sob medida eu lembro de cada vez que você mediu essa parede – todas as vinte e nove vezes – eu olho as persianas, as flores, o tapete... Cada detalhe daquilo que planejamos e fizemos juntos tem nós dois ali e não eu sozinha. Nada disso é meu. Não me sinto em casa escrevendo aqui.
Hoje em dia é difícil escrever sobre amor. Tenho pena de meus pobres personagens paralisados numa época feliz sem fim, sem desfecho e sem realidade. “Desculpe Charlotte, mas não consigo continuar com esse rumo para a história... eu sei que as pessoas esperam outro romance... e-eu... eu entendo. Claro eu vou fazer minha mágica... Boa noite Charlotte”.
De um jeito ou de outro eu vou ter que viver uma grande história de amor. Meu (agora meu, antes nosso) segundo romance tem um prazo apertado para seu lançamento e eu não estou mais conseguindo enrolar a editora. Melancolia não combina muito com o capítulo de vitórias que nossos personagens estavam vivendo em seu hospital cheio de romances e intrigas, adrenalina de salvar vidas e as falhas da administração. Seria a continuação do romance, contando o depois do “felizes para sempre” em que terminou o primeiro livro.
Acontece que, nossa vida estava sendo tão perfeita quanto de nossos personagens e então era fácil colocar toda a animação e entusiasmo naquelas páginas cheias de diálogos poéticos e amorosos, mas hoje em dia tem sido um esforço gigante apenas reler os últimos parágrafos.
Descobri que a personagem principal não é nada do que parecia ser e que seu par romântico não passa de alguém que não consegue compartilhar a vida com outras pessoas. Esta descoberta causou uma grande reviravolta em minha mente como autora e me fez querer mudar o rumo da minha história de uma forma radicalmente louca.
Eu queria fazer minha personagem ir embora para Paris, tomar chá e comer croissant, conhecer um outro par romântico que soubesse respeitá-la por quem ela é e não tentasse moldá-la a sua vontade, mas aí, veja bem depois de toda esta reflexão, vem Charlotte e me diz que eu estou improdutiva! Pior! Diz que o público não vai aceitar que o casal principal rompa e que vamos perder vendas.
Que pena tenho eu dos meus pobres personagens. Como eu queria fazer deles o máximo que podem ser. Como queria que fossem felizes. Mas, para eles resta apenas do martírio de um “felizes para sempre” de verdade verdadeira que ficará eternizado em páginas que vamos imprimir. Quanto a mim, bom, vou imaginar como seria esse felizes para sempre com outro alguém, e fazer minhas malas para Paris.
1 de julho de 2019
Com certeza bati a porta do carro com força demais. Menina “afobada” como diria minha mãe. Eu não fiz por mal, é que por dentro tinha muita coisa rolando. Dez minutos antes de você me beijar eu te contei que ainda estou juntando meus cacos, dentro de mim tem dois sentimentos bem distintos os quais reafirmam que realmente ainda estou em pedaços. Um deles é o medo terrível de passar por tudo que já passei, mais uma vez. O outro sentimento é aquele que me faz tropeçar na rua lendo suas mensagens, aquele que faz com que uma música nova faça sentido e que uma música velha perca a importância. Aquele sorrisinho besta que me faz sentir ter 16 anos de novo.
Aquele medinho de como vai ser quando você me conhecer de verdade por que, assim moço, eu acho importante te dizer que eu sou pequena mas cabe dentro de mim um furacão. Naquela hora em que você estava de frente pra mim a vontade que eu tinha era de te contar logo que eu sou pura confusão e vou transformar sua vida numa cascata de emoções (nem sempre boas). Assim você não pode dizer que eu te enganei ou iludi, assim você pode escolher com clareza e sem assimetria de informações. Meu bem, você tem certeza que quer mesmo entrar no meio desse emaranhado de sentimentos que é meu coração? Veja bem, meu bem, você é um menino novo, tem toda vida pela frente e um futuro brilhante, você tem certeza meu bem, que te faria feliz eu te chamar de “meu”? Bem, mas vamos devagar, te conheci tem 48 horas.
A rapidez com que a minha mente pensa pode assustar as pessoas, enquanto você ainda está pensando no que dizer eu já te contei todos os detalhes dessa sala, reparei no cabelo estranho da atendente do bar e ainda vi que lindos olhos você tem. Eu falo muito! Eu falo alto! Você ta ai todo encantado porque ainda não me ouviu gargalhando meu bem. Eu me apaixono fácil, eu escrevo músicas! Eu desenho nós dois na minha mente daqui um ano. Eu não consigo evitar, minha imaginação voa longe. Quando me dou conta já foi. Às vezes eu mesma tenho vergonha de mim. Tenho vergonha de mostrar quem eu sou bem aqui no fundo, onde parece que você quer chegar. Parece né meu bem, parece.
A verdade é que quando eu bati a porta do carro com força, eu queria mesmo era bater na sua cara por ter a audácia de me querer sem ao menos me conhecer antes. Você acha que essa carinha de anjo é fácil de lidar assim? Você chega assim de mansinho conquistando e tomando meus pensamentos, entrando na minha playlist e no meu texto e, de repente, te mandei uma foto da minha gata! Intimidade, é isso que vamos construir? Quero que você seja antes de tudo meu amigo, talvez assim a dualidade de sentimentos se vá, ficando só aquele frio na barriga da expectativa, e a vontade de se encontrar.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
A falta que faz um pai
São duas e quinze da tarde e meu carro não pega. Rodo a chave uma, duas... três vezes... e nada do motor funcionar. Ao mesmo tempo todas as luzes do painel começam a piscar como em uma árvore de Natal. Isso tudo já seria estressante por si só, mas o fato de eu estar atrasada para uma reunião de trabalho - que eu vou conduzir - deixa tudo ainda mais irritante, para dizer o mínimo.
Os carros passam por mim, o sinal abre uma vez, fecha e abre de novo. Eu estou ali incrédula, olhando para o painel em polvorosa. Lembro do meu mecânico, mando uma mensagem e ele responde prontamente. Após algumas poucas instruções, consigo fazer minha nave decolar. Muito agradecida, pergunto a ele quanto lhe devo pelo serviço, e ele, rindo me diz: "isso aí não foi nada, não vou lhe cobrar não, fica em paz minha filha". Agradeço novamente a gentileza, enquanto duas palavras ressoam em minha mente "minha filha".
Enquanto viro o volante para a direita e dou a seta para sair, fico refletindo "nossa, quanto tempo não ouço um homem me chamando de minha filha". Instintivamente pensei no pai que não conheci. Ou conheci e não tive, nem me lembro. Conectando os assuntos, penso em uma amiga que tem um pai fenomenal. Ele com certeza saberia como resolver um problema mecânico com facilidade, na verdade, qualquer problema que minha amiga enfrente, ele está do lado ajudando-a a resolver.
Eu nunca senti falta dessa presença masculina, pois minha mãe desempenhava com muita dedicação os dois papéis. Mas hoje, depois de fazer análise, comecei a me dar conta que, psicologicamente, é preciso ter uma figura paterna. Ligo a seta para esquerda e, mudando de pista, vou refletindo como não se pode sentir falta de algo que nunca se teve. Quando mudo de faixa outro motorista me fecha, e ainda buzina para mim, como se eu estivesse errada. Fico quieta, pois estou muito envolvida em meus pensamentos para responder aquele homem que me ataca.
Lembro do dia que minha amiga me contou que seu pai consertou a geladeira que a muito estava sem uso. Na outra semana ele pintou as paredes da sala, apenas por que ela queria mudar de cor. Se ela precisa de um parafuso na parede, ou trocar a resistência do chuveiro, ela pode ligar a qualquer hora. Ele está lá por ela. Eu, por outro lado, fui criada para ser independente, resolver os problemas com minha própria inteligência e força e trabalhar muito para nunca precisar da ajuda de ninguém.
Quando eu era jovem achava essa perspectiva interessante, empoderadora, mas com o passar do tempo percebo o quão cansativo é nunca se apoiar em alguém. Rio com a imagem de minha versão de 21 anos, que se orgulhava, ingenuamente, por sua solitude. Ao parar no semáforo, observo os pedestres atravessando a rua. Uma dupla, em particular, me chama atenção. Era um senhor idoso e uma jovem de mãos dadas. A moça parecia ser jovem demais - e parecida demais com o senhor - para ser sua namorada, então, deduzi que eram pai e filha. Foi interessante olhar para os dois naqueles segundos de caminhada, pois notei que ela andava tranquilamente admirando os prédios e placas do centro da cidade, enquanto ele segurava firmemente sua mão e olhada para frente e para os lados, protegendo-a para que ela pudesse desfrutar de sua vida.
Esse pensamento me levou a uma descoberta muito profunda, que até então anos de análise não tinham me provido: eu queria um pai para me proteger enquanto passo por essa vida. As lágrimas chegam aos olhos mas não permito que caiam. Ainda tenho alguns quilômetros antes de encontrar a segurança de minha casa para descansar.